Ser (um) Humano

“Be Human” (Ou, “Ser (um) Humano”) é uma música que faz parte da trilha sonora do excelente  anime Ghost in the Shell. Você pode até nutrir uma certa ojeriza por animes e outras coisas do outro lado do mundo (às vezes, é até justificado), mas acredito que o que realmente é bom deve ser exaltado.

Contextualizando rapidamente, a trama de Ghost in the Shell se passa num futuro não muito distante (cerca de 2037), no qual máquinas com “inteligência” convivem com pessoas. Acompanhamos o dia-a-dia da Seção 9, uma divisão de elite que investiga e combate crimes que aparecem nessa nova sociedade absolutamente transformada, com enfoque para os questionamentos morais e éticos que surgem daí. Uma característica marcante em Ghost in the Shell é que, frequentemente, somos levados a (re)pensar um pouco nas “definições” que damos para vida, consciência e emoções.

Tachikoma

Tachikoma

Nesse cenário, há os Tachikomas, tanques que auxiliam a Seção 9 em ações táticas. São robôs experimentais com uma inteligência artificial mais avançada que a maioria das outras entidades cibernéticas da série. Eles são projetados fisicamente para serem extremamente eficientes, mas existe um outro motivo para eles não terem aparência humanóide: como são usados em ação direta, eles podem ser destruídos e danificados, eventualmente. Entretanto, se sua aparência fosse mais parecida com a humana, isso facilitaria a criação de laços afetivos com os outros membros da Seção 9, e danos a eles poderia afetar o moral da equipe.

O interessante, no entanto, não é saber disso. É ver os Tachikomas discutirem e chegarem a essa conclusão, evidência da transformação  que eles mesmos vão sofrendo com o decorrer da série, desde o primeiro episódio. Aliás, as discussões deles são um tópico à parte, envolvendo filosofia, religião, beleza e alma, dentre outros.

Be Human cover

Capa do mini-álbum Be Human

Parte da trilha sonora da série consiste de um mini-álbum, Be Human, de 2003, também da Yoko Kanno, compositora de toda a trilha sonora. Este álbum é completamente relacionado aos Tachikomas. A música título, na voz do excelente cantor Scott Matthew, é um convite à reflexão e, particularmente, fico em dúvida se ela é realmente dedicada aos robôs que parecem gente, ou às pessoas que parecem robôs. Abaixo segue uma tradução, mas você pode conferir a letra original aqui. É das músicas mais bonitas que eu conheço.

Be Human
(Ser (um) Humano)

Eu analiso e eu verifico e eu quantifico o bastante
100 porcento sem erros, sem falhas
Eu sincronizo e eu especializo e eu classifico tanto
Não me preocupo em sonhar porque eu não durmo

Eu gostaria de poder, pelo menos, 30 porcento,
talvez 50 por prazer, e pular o restante

Se ao menos eu fosse mais humano
eu contaria cada segundo do resto da minha vida
Se ao menos eu pudesse ser mais humano
eu teria muitos bebês e talvez uma esposa

Eu rolaria numa poça de lama e me divertiria muito e aí quando terminasse
Construiria torres de bolha de sabão e nadaria na banheira,
castelos de areia na praia, brincaria na praia, quebraria um joelho
Ficaria com medo do escuro e cantaria desafinado
Xingaria quando perdesse uma briga, iria beijar e me reunir, coçaria a picada de uma aranha
Ia ficar feliz com rugas de sorriso
Mexeria com gatinhos até ronronarem, talvez criasse um passarinho, sempre manteria minha palavra
Choraria em filmes tristes e daria risada até doer a barriga

Eu compraria uma bicicleta grande e andaria nela pelo lago
e teria muitos amigos e ficaria na rua até tarde

Se pudesse ao menos ser mais humano
olharia pra cada coisinha com um brilho no olhar
Se somente eu fosse mais humano
abraçaria cada sentimento que aparecesse na minha vida

Será que eu me importaria com os outros e seria capaz de perdoar?
Seria sentimental e sentiria solidão?
Teria questionamentos e dúvidas?
Iria entristecer outra pessoa? Eu iria saber o que fazer?
Choraria quando tudo acabasse?
Quando eu morrer, eu verei o Paraíso?