Relatos de Feira – Parte 3 de talvez não tantas

Bem, olá a todos! 

Há tempos não tenho atualizado meu blog. Dentre outras coisas, há um esquema de ensino aqui chamado PBL – “Problem Based Learning”, considerado por alguns como um dos melhores sistemas de ensino (?) que existem. Consiste, basicamente, em jogar um problema na sua mão e mandar você resolver – que você resolve, depois de perder alguns cabelos, algumas noites e um pouco de saúde também. Realmente, o aprendizado é garantido, mas sob o alto custo de consumo massivo de tempo.

E por conta do bendito maldito PBL, não tenho tido tanto tempo assim para atualizar o Blog. É bem verdade que tenho passado bastante tempo na internet, mas isso para tratar de assuntos paralelos e deveras mais singificativos que o meu blog.

No mais, estou começando a me habituar a essa cidade salvo as situações em que esqueço de uma blusa mais quente e volto pra casa tremendo o queixo (cidade do sertão baiano é fria que é danada à noite), está tudo quase na mais perfeita ordem.

Também ocorreram coisas ruins – que não são necessariamente ruins – mas que deixam a gente pra baixo e desanimado. Mas o mais importante é saber que, apesar de tudo, a vida segue em frente e tempo é o melhor remédio pra tudo. Algumas coisas merecem de tempo para crescer – ou para desaparecer.

A cidade finalmente está me parecendo mais familiar e estou fazendo alguns amigos. O pessoal daqui é muito caloroso – percebi isso logo, com os constantes cumprimentos acompanhados de tapinhas nas costas. Realmente não há lugar como a Bahia.

Descobri finalmente – eu acho – qual é a do transporte gratuito. Ele serve como alimentador dos três terminais de ônibus da cidade. Ou seja, pessoas que moram distantes de algum lugar onde passa ônibus pegam as vans de transporte gratuito para os terminais, e dos terminais vão pra outro lugar. Só que você sabe como é, tem sempre gente que se aproveita da boa vontade da prefeitura e pega a van como transporte final – e não como intermediário.

Eu sou um desses =]

No mais, estou muito contente com o curso. Finalmente as coisas estão se encaixando – tipo software + hardware. Acho que eles (os professores) utilizam a linguagem C – de médio nível – de propósito, em integração com o estudo de dispositivos de hardware, para a coisa casar bem. Isso me pareceu muito inteligente – na verdade estou surpreso/maravilhado com todo o curso. Vou dizer o porquê.

O curso de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Feira de Santana foi criado há 3 anos (eu acho), idealizado e tem sido carregado nas costas pelo professor Roberto Bittencourt. O que mais me impressiona é, que apesar de todas as dificuldades, como falta de um prédio próprio, falta de salas ideais para o ensino das disciplinas (“ideais” é um conceito complicado em quaqluer lugar), o curso se apresenta de uma maneira muito organizada. Temos um dos mais organizados colegiados. Nossos professores são poucos, e apesar de não haver reconhecimento do curso, vontade de o fazer é o que não falta.

No mais, acho que as maiores controvérsias e problemas pelos quais estou passando se limitam à esfera pessoal. Saudade dos amigos, da família, e de algumas outras pessoas que me eram mais próximas e hoje estão mais distantes, não necessariamente fisicamente.

Aconteceu algo interessante, e triste, mas engraçado. Enquanto estava na UFS, o grande professor Leonardo Nogueira (grande mesmo, sou fã da trajetória profissional desse cara) passou um trabalho pra turma. Contei a vocês que a minha equipe ficou encarregada da parte de CPU. Abaixo, segue um email de considerações de conclusão de semestre que o professor nos enviou – foram editadas partes de conteúdo não relevante:

“Pessoal,

Infelizmente nao tivemos mais oportunidade de nos reunirmos apos o encerramento da disciplina. Gostaria de ter tido essa oportunidade para falar algo muito importante para voces, portanto, leiam essa mensagem com atencao. Vou comentar os criterios usados para pontuacao das notas dos trabalhos e oportunamente vou comentar alguns problemas gerais que encontrei. Gostaria de chamar a atencao de voces sobre esses problemas para que eles nao voltem mais a se repetir durante a vida academica e profissional de voces, ou seja, pelo resto de suas vidas. Com relacao ao artigo, li cada um com muita atencao e fui ficando cada vez mais com uma impressao pior a respeito do metodo que voces usaram para escrever o texto. Exceto um pequeno trecho ou outro, como a introducao e a conclusao, o restante do trabalho foi praticamente uma copia ou traducao das fontes investigadas. Posso estar errado em alguns casos, claro, mas em outros nao hah como se enganar porque algumas equipes nem se quer se deram o trabalho de traduzir o material do portugues usado em Portugal para o portugues do Brasil. Nao faz sentido, entao, que eu de uma nota sobre um trabalho desses porque eu estaria dando uma nota ao trabalho de outra pessoa. Quando for fazer um trabalho, faca voce mesmo. Voce tem que se comprometer, tem que assumir o risco de errar. Se voce nao estah entendendo um conceito direito e vai fazer uma prova, o que acontece? Voce perde ponto porque erra mas tem uma boa chance de aprender o que errou. Se voce copia um texto e coloca no trabalho sem entender direito, o que acontece? O professor nao vai saber nada a respeito de seu entendimento do assunto e voce vai para frente do mesmo jeito que entrou. Isso eh certo? Eh essa a universidade que voces querem?

(…)

Espero que voces nao facam mais trabalhos dessa forma.

Quanto aa apresentacao oral, tive otimas impressoes de algumas equipes e pessimas de outras. Muitos alunos simplesmente fizeram uma leitura na frente da turma. Isso nao faz o menor sentido na idade que voces tem. Quando eu era menino, na epoca do primario, a professora pedia para a turma para ler um trecho de um livro em voz alta e a gente era pontuado por isso. Esse tipo de situacao nao pode ser vivido numa universidade em hipotese alguma. Eu sei que voces aprenderam a ler, entao, para que eu daria uma nota pela leitura em voz alta que voces fizeram na frente da turma? Esse tipo de comportamento tambem tem que ser eliminado de uma vez por todas. Voces ainda darao muitos outros seminarios durante os quatro anos que ficarao aqui. Os proximos nao podem ser assim de forma alguma. (…) Espero que voces tenham ido para frente um pouco mais maduros. Lembrem-se sempre das observacoes que fiz nessa mensagem.

(…)”

Ai.

Cara, isso machuca, mas é uma prova de que a gente aprende mais com os erros do que com os acertos. É bem certo que o que fiz no trabalho foi por falta de tempo e tudo, mas ainda assim agradeço ao professor pela franqueza. Aliás, agradeço a todos que me são francos – todos mesmo.

Mas mantenhamos a cabeça erguida que temos que seguir em frente. Não gosto de mensagens bonitinhas, positivas, essas coisas, mas é preciso ânimo para seguir.

Um abraço, cambada! Até mais!

Opa, mas não é tempo de ir!

Aliás, gostaria de dizer ao Bleno que esta não foi uma edição de “bloco de notas”, mas digitado inteiramente online. E agradecer ao Rafael dO Mal do Século e à Lu Scarlett pelas gentis traduções da canção que segue, chamada Je Te Veux. O compositor da melodia, que foi o que realmente me cativou, chama-se Erik Satie. O cara foi um excêntrico, que tinha como ideal criar um modelo de música que servisse como um móvel da casa, que fizesse parte da decoração. Ele tocava, e quando paravam de conversar para escutar sua música, ele que mandava as pessoas conversarem. Além disso, tinha um armário cheio de roupas iguais e foi fundador de uma igreja, da qual era o único membro – e vale salientar, todas as outras pessoas foram excomungadas. Essa pessoa excepcional é considerado por muitos um gênio, e tem algumas de suas músicas conhecidas – como a “Gimnopedia #1”, que não raro toca na tv. Essa valsa, a Je Te Veux, não é a favorita do próprio Erik Satie, mas com certeza é a minha.

Je te veux (Erik Satie) (1887) Eu Te Quero (Erik Satie)
[refrain:] [refrão:]
J’ai compris ta détresse, Eu compreendo tua angústia,
Cher amoureux Querido amor
Et je cède à tes voeux, E eu cedo a teus pedidos,
Fais de moi ta maîtresse, Faça de mim tua mestra,
Loin de nous la sagesse, A razão para longe de nós,
Plus de tristesse, Sem mais tristezas,
J’aspire à l’instant précieux où nous serons heureux Eu espero pelo instante precioso onde nós seremos felizes
Je te veux. Eu te quero.
Je n’ai pas de regrets Eu não tenho remorsos
Et je n’ai qu’une envie E eu só tenho um desejo
Près de toi, là, tout près, Perto de ti, assim, tão próximo,
Vivre toute ma vie, Viver toda a minha vida,
Que mon coeur soit le tien Que meu coração seja teu
Et ta lèvre la mienne, E que teus lábios sejam meus,
Que ton corps soit le mien, Que teu corpo seja meu,
Et que toute ma chair soit tienne. E que toda minha carne seja tua.
[refrain] [refrão]
Oui, je vois, dans tes yeux Sim, eu vejo, com teus olhos
La divine promesse A divina promessa
Que ton coeur amoureux Que teu coração amoroso
Vient chercher ma caresse, Vem procurar meus carinhos,
Enlacés pour toujours, Enlaçado para sempre
Brûlés des mêmes flammes, Queimado com as mesmas chamas,
Dans des rêves d’amours Nos sonhos do amor
Nous échangerons nos deux âmes. Nós trocaremos nossas duas almas
[refrain] [refrão]
(paroles: Henry Pacory) (letra: Henry Pacory)

Devo minhas considerações também ao compositor da letra.

Agora sim, um abraço aos que lêem, aos que aturam e aos que fazem os dois.

Até mais!



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