Relatos de Feira – Parte 2 de muitas.

Vota, Brasil?
Ouvindo: Anastacia – I’m Outta Love – Pieces of a Dream (2005)

Parece brincadeira, tenho talento pra encrenca em viagens sozinho. Uma vez, um ônibus quebrado e cinco horas de atraso. Outra, perdi a hora e tive que pegar um táxi pra alcançar o ônibus, táxi esse que saiu mais caro que a própria passagem. Mas dessa vez, ah, essa sim, foi uma coisa linda de Deus.

Sábado. Tinha que pegar uma van aqui em Feira de Santana, Bahia, para ir pra Santa Bárbara, uma pequena cidade vizinha. Nessa outra cidade, pontualmente ao meio-dia, estava acertado para encontrar uma tia minha que me levaria para Queimadas, Bahia [?]. Sim, como um bom aracajuano nascido em São Paulo e residente em Feira de Santana, eu voto em Queimadas [!]. Era cerca de 11 horas, estava supertranquilo, os relógios trabalhavam, tudo funcionava na sincronia do Bolero de Ravel. Mas não tinha levado em consideração – nem eu, nem ninguém mais – que em época de eleição, as linhas de transporte ficam hiperlotadas. E fiquei uma hora esperando um carro vazio que pudesse me levar; em vão, até meio-dia eu ainda estava no ponto.

Em um instante de perspicácia, decidi pegar uma moto-táxi pra ir diretamente ao ponto de onde as vans saiam; com certeza, lá eu poderia pegar uma vazia. Meio-dia e quinze, já estava no outro ponto, e tal qual pensei, um carro vazio logo passou. E barato, tão barato que logo encheu de gente.

O diabo é que ninguém percebeu que a van se tratava de um carro particular, não-legalizado para esse tipo de transporte.

E assim fomos, eu e mais 13, no transporte alternativo quase superlotado. Um sentimento de “finalmente” se abateu sobre todos, dentre os quais estavam umas moças que tinham sido passageiras de um outro carro que quebrou ainda saindo da cidade. E seguimos alegres e satisfeitos até a blitz da PRF (Polícia Rodoviária Federal). E só até lá.

Ao sermos interceptados pela PRF, o motorista do automóvel tentou se valer de uma [falsa] esperteza: ora, se ele estava em situação irregular para transporte de passageiros, ele poderia ser preso! Seria convincente, então, ele dizer que estaria levando o pessoal para ir votar no interior. De fato, muito bem senhor motorista! Foi bem pensado, convenhamos, mas ele não sabia [e nem eu, e eu acho que ninguém mais] que fazer transporte intermunicipal gratuitamente nesta época, com o objetivo de votar neste ou naquele candidato [coisa que obviamente não era verdade] consistia crime eleitoral.

Estávamos agora sendo escoltados pela PRF [gente importante é outra coisa!] até a 2ª CP [o nome é mais completo, mas eu não sei], delegacia daqui de Feira de Santana. Em menos de meia hora, eu tinha ido de um ponto de vans para outro, e de lá para a delegacia. Veja o que é eficiência: menos de uma semana morando fora de casa e eu já vou parar na polícia.

Cerca de uma da tarde, aguardávamos o policial completar o Boletim de Ocorrência [ou qualquer coisa assim]. O motorista parecia estar em maus lençóis. Os passageiros não estavam envolvidos, éramos vítimas de um mal-entendido [se é que eu posso chamar assim] entre o motorista e os policiais. Mas também, seu motorista, que idéia essa de dizer que levava o povo pra ir votar! Agora, três testemunhas eram necessárias para dizer que éramos simples passageiros, e não perigosos eleitores. A essa altura do campeonato, até o motorista estava disposto a contar a verdade. Dos males, o menor.

Duas testemunhas depois, ninguém dos ex-quase-passageiros estava disposto a servir de terceira. Eu, movido pelo mesmo espírito cívico que me fazia [querer] viajar uns 200 quilômetros apenas para votar, prontamente me dispus a servir de testemunha. [Na verdade, esse “espírito cívico” era pura impaciência. Sabe, aquela história toda, já não suportava ver aquele povo inerte em qualquer iniciativa de tentar resolver a situação]

O guarda da PRF disse que era rapidinho, que era só assinar um papel, aguardar dois minutinhos até a delegada nos ouvir e já estaríamos liberados. Depois que a PRF saiu, o delegado adjunto nos explicou o significado de “rapidinho”, de acordo com a interpretação dos órgãos públicos brasileiros.
“Mãe, tá tudo bem, viu? Tô na delegacia, teve um problema aqui com a van, mas tá tudo bem, tá? Já, já tô chegando. Beijo.”Ainda bem que quem atendeu o telefone foi minha mãe, pois meu pai tem problemas cardíacos.

Duas da tarde – a fome não existia mais, já havia nos consumido o estômago. Eu e as outras duas testemunhas éramos só ira. E fome. Os outros, os inertes, esses são sortudos; foram liberados, pois já havia testemunhas suficientes [ =D ]. Duas e meia, finalmente a delegada tinha sido liberada de um outro caso, e iria nos ouvir. Pode-se dizer que ela não estava com o mesmo espírito cívico que eu [ou talvez estivesse]. Puxa vida, trabalhando desde de manhã, ela merecia almoçar. Eu não, eu poderia esperar até que ela voltasse do horário de almoço, afinal, ela é um autoridade e merece o devido respeito. Eu não.

Em milésimos de segundo, a delegada saiu, entrou no carro e se mandou. Horário de almoço. Aí a galera ficou muito puta da vida, que porra é essa? A gente aqui esperando e ela sai assim? Pô, meu documento tá aí, o pessoal já foi, e a gente aqui esperando? Ah, pô! Eis que surge a figura da esrivã, à qual enchemos o saco até que ela liberasse nossos documentos.
Não perdi tempo em pegar a minha mala, uma moto-táxi e tocar pra rodoviária. Rodoviária, sim, transporte legalmente correto. Esperei ansiosamente pelo pontual ônibus de três e quinze que chegou às quatro. Ah, poltrona 40, a última. Foi uma longa viagem de 200 e poucos quilômetros, que chegou às 8 da noite e que parou pra todo ser vivente na beira da estrada que conseguisse estirar o braço. Ônibus lotado? O menor dos detalhes.
Sabe como é, quem conta um conto, aumenta um ponto. Minha mãe, que temia pelo seu filho que tinha sido preso [!] ficou mais calma ao me ver e ao explicar a história toda.
Votar! Acordei cedo, enfrentei fila e fura-filas. Tradição do lugar todo mundo ir votar cedo. Ou pelo menos de muita gente. E às duas da tarde do domingo já estava no caminho de volta. Mas de volta pra Alagoinhas, cidade da minha Maria; ia ver um problema no computador da minha tia, que mora lá. na segunda de manhã pegaria o ônibus pra Feira de Santana. Na verdade, são 11:40 da segunda-feira, dia 2 de outobro de 2006.

O interessante é que passar por todo esse fuzuê pra rever a família e depois ainda encontrar a Maria valeu muito a pena.
Ouvindo: David Benoit – The Last Goodbye – Freedom at Midnight (1987).


3 Comentários on “Relatos de Feira – Parte 2 de muitas.”

  1. Rafael \o/ disse:

    Pelo menos vc conseguiu votar, Caco! Ser cidadão! Mostrou sua opinião, e escolheu o Ladrão Oficial da República!Vive la Democracie!

  2. Nath ^^ disse:

    Nossa cac O.O Clapt clapt pra você o// Tudo isso e ainda votou ^^ Mas bem, veja outro lado positivo, você terá muitas histórias pra contar pros filhiho e netinhos =]=*o/

  3. Mandoca disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, eu sei que na hora vc deve ter ficado irado,mas depois do susto,dá pra soltar umas boas gargalhadas!!!!!!!!!É o que eu (até a minha mãe)estou fazendo agora….Tudo de bom aí em Feira ,viu…Bjosssssssss


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